Vai
começar! Vai começar aquela timeline
dívida entre: de um lado aqueles que gostam de BBB e não tem outro assunto para
discutir – monotematismo a gente vê por aqui! De outro, aqueles que não gostam
de BBB, mas, para não fugir a regra, continuam falando do BBB – contradição a
gente vê por aqui. Há ainda aqueles tipos de que não gostam nem de um nem de
outro, mas que continuam falando de ambos. De um lado, uns defendem o direito
ao entretenimento e a diversão, ao escape de todo o dia. De outro, vislumbra-se
um apocalipse generalizado para quem o BBB representa o fantasma da burrice e
da ignorância. Se os primeiros tendem a “naturalizar” o lugar político e
cultural com o slogan BBB é só diversão, os outros, apesar de
levantarem, considerações fundamentais, ao reduzirem o universo simbólico da
televisão e do reality-show a mero
subproduto da dominação, arriscam-se a reforçar a violência que denunciam. Entre
pros e contras, para o mal ou para o bem, entre mortos e feridos, o BBB vai
virar assunto de pauta nacional. Talvez não dê mesmo para desconsiderar os
efeitos e as potências dessa máquina chamada TV nem desta coisa chamada BBB.
O
que pouca gente recorda é que o BBB faz eclipsar um ícone do totalitarismo evocado
no clássico 1984 de George Orwell. Grande Irmão é o nome da figura aglutinadora
e diretora de um partido oficial, o único com direito de decidir as políticas
de economia, de guerra e de paz de um continente subjugado pelo partido do
socialismo inglês. O Grande Irmão detém também o controle da câmera que
invade a privacidade dos lares, em busca de indícios de crimes insidiosos tais
como ler, pensar e escrever. Fabricar verdades, distorcer estatísticas
e reinvenção de conteúdo semântico de vocábulos são estratégias para produzir
unidades móveis de produção de imagens e informação que alimentam o sistema político,
criam um senso comum público e um pacto de consumo e audiência. Qualquer um que
acompanhe o BBB pela internet já ouviu algumas dessas estratégias virarem
acusações, mirando o dedo sobre o diretor da atração, carinhosamente conhecido
como Boninho.
Comparar o Grande Irmão
a matiz do BBB para efeitos conceituais e abstratos não é uma simples denúncia
do fascismo nosso de todo o dia. O que
Orwell não previa é que o plágio deliberado e malicioso inverteria o sentido da
câmera de vigilância com os lares vigiando “os privilegiados pelo sistema”. Os
filhos do imaginário da classe média urbana - o empresário, o artista plástico,
a designer, o cabelereiro, a dançarino, o médico, a modelo, a socialite, o gay, o
boy magia, o nerd – divulgam, agora, a
sensação vulgar de que o privilégio pode ser dado a qualquer um de nós. O BBB
não serve somente ao merchandising, não é apenas uma grande comercial com tons
e fatos de fazer inveja a qualquer romancista. O único produto que ele põe a
venda é a própria vida. Não se trata apenas de um comercial que usa da vida dos
outros para vender um sabonete, um carro ou o Niely Gold. Ali, a vida dos
outros virá o veículo e produto de venda.
Nessa versão bombada da
vida para alimentar nosso canibalismo para fracos, o BBB vende de tudo, crimes,
pecados, pensamentos, desejos, passados, sonhos, infâncias,
as próprias doenças e misérias, emprega todo um espírito para vender, em
particular, aos pais preocupados com o futuro dos seus filhos, aos educadores
preocupados com a inocência das crianças, aos médicos preocupados a saúde dos cidadãos,
àquelas a quem se ama e a si próprios. E quando essa versão turbinada da vida e
a vigilância sobre ela se tornam entretenimento e pedagogia da existência,
frequentemente o espetáculo vira tédio. Num lugar em que nenhum de nós decide nada de importante, aprendemos mesmo que a participação democrática não passa de diversão em horário nobre. Vou ali escapar da vida, vigiando comportamentos, julgando e excluindo por voto anônimo para rir da realidade fazendo cosplay da democracia. Essa é vida real da novela BBB: uma vida que de tão oca e anestesiada perde-se de si mesma.
Não é de se estranhar que os
movimentos de boicote ao BBB ainda tenham como parâmetro a greve sindicalista “abaixo ao BBB”, “desligue a sua TV no BBB” ou “BBB, o burro aqui é você”. Um
tanto narcisistas, do tipo “eu sou muito bom para assistir BBB”, e um tanto
pessimistas, do tipo “BBB deseduca uma nação inteira”, sua única novidade é que
passam pela www e se interligam pela vocação ciberativista dos
internautas que formam redes e comunidades de pressão e ação em oposição ao
silêncio beligerante dos telespectadores. Voltem, então, suas forças para as
TVs, e nem precisam desligar seus computadores, reconheçam nela um bem público,
tomem posse e façam uso dela. É impressionante como a nossa geração que aprendeu
cedo a mobilizar-se e espraiar-se em vocação e aglomeração política por qualquer
plataforma disponível na internet, dos blogs ao Facebook, do Twitter as
petições online, um mundo mais
complexo e mais dinâmico, não saiba sequer por onde começar a fazer do sofá de
suas casas um espaço de luta. Que uma
geração inteira de jovens militantes e intelectuais consiga apoiar causas
indígenas no norte do País e ocupação do MST no Centro-Oeste, mas não tenham a
mínima ideia de como ocupar suas salas de estares e o máximo que possam fazer
com aquele tubo emitindo imagens é gritar contra ele. Como assim, Bial? Parece
mesmo que o BBB e a televisão é uma máquina de embrutecer sonhos.

Não há nada mais fajuto do que esses boicotes ao Big Brother Brasil. O país que sustenta o programa há doze anos e tem como feitos o record de maior participação por telefone ou internet de todas edições, entre todas as versões da franquia exibidas em mais de 70 países, não tem força ou vontade suficiente para acabar com esse ciclo vicioso. Mais ridículo do que assistir ao reality show sob a alegação de que "é só diversão" - a menos que essas pessoas tenham a capacidade sobrenatural de desligar os lobos cerebrais responsáveis pela razão e pelo juízo antes do programa e religá-los ao seu fim - é assumir a tarefa infrutífera de tentar convencer os telespectadores a não assisti-lo, ou pior, a emissora a retirá-lo da sua programação. Consumidores, coniventes ou revoltados, não passam de números nas estatísticas de audiência da mídia de massa. Quem quiser mudar o mundo, que aprenda a produzir.
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