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quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Entre o Fast Food e a Pintura Barroca



Quando temos contato com uma obra de arte a primeira sensação é de estranheza. Depois, vem o desafio, a instigação, a curiosidade e, por fim, a admiração irrepreensível. O Som ao Redor, de Kléber Mendonça Filho, é daqueles filmes em que cada frame conta uma história em si mesma. E se o conjunto já é bom, a soma das partes é melhor ainda.
Dividido em três partes - Cães de Guarda, Guarda Noturno e Guarda-Costas - o longa faz um afunilamento e conduz a narrativa para a iminente explosão e para a consumação de sua metáfora mor: a luta de classes. Sem ser maniqueísta, apresenta a classe média em toda a sua dimensão política denunciando, inclusive, a inércia de um segmento social onde a máxima de "eu luto pelo interesse dos outros, mas quando sou chamado para votar dou as costas" se faz presente. Exemplo disso é a cena da reunião de condomínio onde está em discussão a demissão ou não do porteiro do prédio e um jovem que tanto defendeu a não demissão, ou pelo menos a demissão sem justa causa, não hesita em sair na primeira oportunidade que encontra. Pontuando de forma belíssima metáforas visuais que ora criticam a especulação imobiliária - como o plano em que prédios são substituídos na passagem por garrafas de cerveja em pé - ora denunciam a coisificação do homem - como no caso do zoom in saindo do prédio e focando em uma porca. É como se nos transformassem em um encaixe estático para um mundo de concreto.
O espaço de contenda do filme é transfigurado numa rua, onde o microcosmos cosmopolita reproduz para qualquer um o cenário do Brasil e confirma a tese da Casa Grande e da Senzala tão defendida pelo diretor em seus curtas (entre eles, Eletrodoméstica e Recife Frio). Reduz e expande com forças antagônicas os interesses de senhores e servos e com um humor ácido traz a dura verdade sobre a existência em nosso meio do coronelismo nos tempos atuais. Corrobora com essa ideia o banho de mar do senhor que detinha a posse dos terrenos da rua onde estão situados os prédios e que é dono de um engenho antigo. Ao entrar no mar, uma placa faz o contraste irônico com os dizeres: "Perigo! Área sujeita a ataque de tubarão". Avançando em sua tese central, Kléber discorre sobre os conflitos do discurso entre classes dominantes e dominadas em simples diálogos em uma mesa de jantar, por exemplo, ou na fuga de uma mulher comum, mãe de família, para um submundo das drogas e do sexo para saciar a sua tensão de um mundo perfeito. O filme ainda traz um diálogo impressionante entre duas adolescentes que mais lembra a dublagem de um desenho animado. Essa dissintonia entre a cena e a nossa sensação do real reforça mais uma das críticas do filme que estão expostas desde o início da projeção: a não percepção do ambiente, das coisas envolta, dos sons, da vida e a transformação do "real" em "virtual". O filme termina com uma indefinição sobre quem venceu e quem foi vencido. Termina com uma luta vinda da história. Termina com a certeza de que é a luta, a luta de classes, que movimenta o nosso destino. Ao acender das luzes da sala do cinema, fiquei em êxtase pelo que tinha visto e triste por saber que poucas pessoas o verão. Por isso, só isto me resta a dizer: Que orgulho do cinema brasileiro!!!

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