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domingo, 21 de setembro de 2014

A boneca que se rebelou contra o plástico

Foto: Sofia F. Ricardo / Arquivo pessoal.
“Mamãe, quero aquela.” E a criança aponta da calçada para uma boneca de renda fina, reluzindo pelos olhos caramelados de desejo. Esse é um dos primeiros elos simbólicos sobre gênero, estabelecidos ainda na infância, que repercutirão em sua vida. A mãe tergiversa e tenta mudar de assunto. “Tá caro, filha”. “Não... eu quero essa. Essa!”, desconversa. O coração rendido se solta. “Pronto. Vai ser essa.” A primeira compra, de livre e espontânea pressão, é feita. Uma parte do mundo, então, se abre para os grotões da vida.
Beirando os 190 centímetros, a boneca comprada pela criança se desprende do corpo. Está sentada em minha frente. Em pouco mais de uma hora de conversa, ela, a boneca – ou a criança –, revela, numa vontade imensurável de abraçar o mundo: “Eu sempre tive vontade de morrer.” Quem está ali a me dar todas as incompletudes, e nuances de um mundo quase quixotesco, é Sofia Favero Ricardo. A ventriloquista e marionete dessa peça. 
Era segunda-feira, 2 de junho, quando essa entrevista foi feita. Estávamos nos preparando para aumentar a publicização da Marcha das Vadias de Aracaju, que aconteceria praticamente duas semanas depois (no dia 14), mas, por alguma razão, não consegui nem iniciar esse texto. Até agora. O motivo só depois ficou claro: estava faltando identificar a boneca e a criança. Sofia é o universo que compreende a loja e a rua.
Não por menos, os seus olhos não paravam em ninguém. Preferia enxergar o horizonte enquanto conversava comigo para, nas poucas vezes em que parou para me ver, guardar o sorriso e a ironia. Pode parecer pouco, mas essa é a resposta intempestiva para o reduto que luta diariamente. Sofia é uma sobrevivente de si mesma.
Para bonecas, os centímetros de seu corpo são apregoados pelos olhos alheios. Tudo vira conta para agregar valor: cabelo liso + corpo magro + boas curvas. E é aos outros a quem é designada a função de formatar o perímetro do ser. “Fui modelada para achar isso [sobre o meu gênero].”
Não à toa, Sofia só percebe o mundo depois. Uma boneca feita de plástico precisa ser colocada em um padrão, enclausurada em uma caixa. Foi assim que escolheram o seu sexo e o seu gênero. Foi assim que questionaram sobre a sua sexualidade quando o que estava em jogo, em profunda contenda, era a sua identidade. Foi assim que ela deixou de ser “ele” para se afirmar enquanto “ela”. Uma briga sobre um ego em distensão que causa estranhamento. E o estranho, teimam alguns, é a boneca que, ironicamente, só reflete o que os seus olhos captam.
Ser designada enquanto homem e se apresentar como mulher tem para Sofia o significado inato que pessoas cisgêneras (que não tem problemas entre o sexo designado ao nascer e a sua identidade), como a maioria de nós, jamais perceberemos como um problema real. Pois, de antemão, é uma existência colocada na pirataria pelo próprio Estado.
Sofia na concentração da Marcha das Vadias 2014 de Aracaju, em 14 de junho. Foto: Linda Brasil / Arquivo pessoal.

E assim foi na violência que sofreu no ônibus em Aracaju e que repercutiu no país todo. Na apalpada em sua bunda, nos risos de escárnio das pessoas sobre sua identidade trans (que foge da normatização binária entre o que convencionamos enquanto masculino e feminino na sua correspondência com o duplo do sexo homem/mulher), nas chacotas com o “viado-traveco”. 
Como se essas duas palavrinhas tão banais pudessem ser uma coisa só à revelia de quem não se vê enquanto homossexual – mas como mulher trans* (que tem o seu sexo em desacordo com o gênero designado ao nascer e se afirma enquanto mulher, como travestis e transexuais). 
Como se identidade – como gosta de frisar – fosse o mesmo que orientação sexual. Disso, conclui: "Eu sempre achei que quando eu visse a morte ia pular em cima. Entende o que quero dizer?" Entendo, Sofia. "Eu sempre quis que alguém me matasse." Tornar-se uma mártir no lugar abjeto em que a colocaram é uma necessidade.  
Mas o mais irritante foi o silêncio dos bons que enxergavam a tudo. Sobretudo as mulheres que passam e sofrem por isso cotidianamente. “Se elas gritassem, elas seriam apoiadas. Se elas batessem, elas seriam apoiadas. Mas eu não fui.” E o olhar da boneca, que agora me alcança, consegue me atravessar por inteiro. A solidão é também um tipo de morte.
E a morte, quando confrontada assim, assume também funções místicas. “Eu vou tirar o demônio do seu corpo”, gritou o segundo agressor. O pai da boneca havia dito a mesma coisa. Sobre isso, Sofia argumenta: “Eu acho mais agressivo dizer: ‘Jesus te ama’.”  Não era heresia. Era a constatação sobre a realidade concreta, de um fundamentalismo religioso já arraigado em nosso meio. Era a prova cabal de que a relação vítima-agressor, aqui, não podia ser reduzida ao empurrão que levou – ou ao assédio que sofreu. Porque um duplo já estava montado entre o rapaz que gritou isso no ônibus e o seu pai – com quem não fala até hoje. Foi o retorno decisivo à infância. Um retorno ao papel de criança.
“Não vou dizer que sim, mas também não vou dizer que não”, contemporiza quando perguntada se a percepção de que estava no corpo errado já se fazia desde pequena. "Eu não sabia o que tinha de errado com isso. Eu só fui saber o que era uma transexual quando eu era adolescente." Uma entre três irmãs, hoje, com 20 anos, sentada naquela cadeira enquanto dividia o tempo entre mim e Mirna, Sofia era criança. Escavava a memória como poucos arqueólogos de cabeça. Não para achar nódoas fundamentais, mas para estabelecer rotas de fuga. Ela sabia e teve a completa noção de que é uma trans* privilegiada. E talvez essa seja a sua sina.

Sofia, junto com Daniela Andrade, Linda Brasil, Thiago Ranniery, Fernanda Bravo, militantes do coletivo RUA - Juventude Anticapitalista na Parada LGBT 2014 de Sergipe, no dia 31 de agosto. Foto: Linda Brasil / Arquivo pessoal.

O desencaixe do padrão cria estratégias de tentativas de normalização para todos. O estranho não pode existir. "Meu pai pagava os meninos pra brincar comigo. Eu via ele pagar cinco reais." Era corriqueiro, doloroso. Enquanto a sociedade moderna privatiza tudo à sua volta, algo ainda faz questão de tornar público: o corpo. Escapando dessa lógica de All Star, a criança, Sofia, ergue a cronologia de sua nova vida: aos 16 anos começou a tomar hormônios; aos 17, se assumiu como Sofia; aos 18, implantou uma prótese mamária; aos 19, entrou na faculdade e aos 20 mudou o nome em seus documentos. Uma vida que, por si só, já é uma potente produção de resistência.
A aceitação em casa foi tranquila – e até esperada. Na escola, porém, houve dois momentos bem distintos. No Ensino Fundamental, estudou em uma escola particular de bairro. "Se desse uma pinta, todo mundo já sabia." O preconceito estava mais exposto. Já no Ensino Médio, foi o período de descoberta. Com 15 anos, entrou no Colégio Estadual Atheneu Sergipense e, logo de cara, teve o primeiro contato direto com uma trans* que permitiu que a criança dentro da crisálida irrompesse na borboleta. "Por sinal, foi ela que comprou o meu primeiro hormônio."
Para muitas, o processo de hormonização é uma das coisas mais difíceis do ser trans. Para Sofia, no entanto, foi fácil porque foi paulatino. Apenas, porém, com um adendo: "Demorou assim... uns oito meses eu tomando hormônio escondido da minha mãe." Mas não chegou a se importar. "Eu acho que ela preferia eu mulher do que [o que] eu era. Eu era muito andrógina. Hoje eu sou muito discreta."
Nunca se prostituiu, faz parte da classe média, tem uma família que a apoia e estuda Psicologia em uma faculdade particular. Sofia é daquelas raras exceções em que a investigação consegue desvelar mais do Outro do que de si mesmo. A sua sala na faculdade é conhecida como a sala do traveco. “Porque tem um traveco”, arremata irônica.        
Ir ao banheiro, comprar uma comida na praça de alimentação da faculdade são atividades hercúleas que só consegue executar com a engenharia dos amigos. O banheiro só usa o de pessoas deficientes – e quando não tem ninguém. “Eu tenho muito medo das pessoas perceberem que eu não sou uma mulher cis e pedirem pra eu sair do banheiro”, desabafa. Lanche, em geral, não compra. "Porque é sempre um burburinho quando eu entro na praça [de alimentação]. Ficam sempre: 'ói ele'.”
A gramática de sua vida só conseguiu ser exposta com a criação da página Travesti Reflexiva, em 2012. Foi a partir daí que a criança aprendeu que o grito era uma forma potente de destrancar todos os titãs aprisionados. Inclusive com a publicização da violência que viria a sofrer depois, no ônibus. Na crueza do chão frio da rua.
Num dos últimos momentos, antes de fechar essa entrevista, pergunto o porquê de se afirmar enquanto travesti. Empolgada, revela: "Esse é o meu projeto de vida." Gabriela Leite – militante feminista e ex-prostituta, falecida no ano passado – é sua inspiração. "Ela é minha musa porque ela mostra a importância de mudar o contexto. Ela gosta de ser puta. Eu gosto de ser travesti". E a criança, então, se quebra. A boneca se perde. Não são mais nem uma, nem outra coisa. Mesmo porque, “travesti é muito pouco pra mim. Eu sou Sofia.”    

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