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sexta-feira, 26 de abril de 2013

A volta dos que não foram

Voltamos ao nada sem nunca termos saído de lá. O Estado finge que atua e nós acreditamos que estamos lutando contra ele. Não existe nada para além do "bandido bom é bandido morto". A justiça se faz com sangue. Esqueceram apenas de esclarecer de quem era. Poço Verde quer retornar hoje a um estágio muito próximo ao de que vivia há pouco menos de um ano. O medo bate a porta com força. Assaltos e roubos dizem que voltaram pra ficar. Comemorações das profundezas renascem. "Onde estão os policiais?" "Onde estão as leis?" "Onde está o Estado?" É o que mais se pergunta.
Quando pessoas, as mais distintas, manifestaram-se no Facebook relatando a realidade que viviam diariamente no perfil da deputada Ana Lúcia ou em suas timelines, não eram elas comerciantes ou professores e muito menos estudantes, mas a voz de um povo que queria de toda forma desabafar. Expor a crueza dos seus sentimentos, desnudar-se da alça forte do silêncio para, com muita sinceridade, expor um pouco de si que é um pouco de nós também. Não importa se concordamos ou não com o que foi dito por essas pessoas - a grande maioria endossou o coro -, pois o que se revela urgente é a atuação do Estado para dar o constitucional direito à segurança pública que também se traduz no direito à cidade a todos os moradores de Poço Verde. O que se viu, contudo, foram remendos típicos de quem quer esconder o problema com outro problema: o grupo de extermínio.
Ana Lúcia, atual presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de Sergipe, e, verdade seja dita, a mais combativa e lutadora dos deputados estaduais (tanto que ainda na época que colhíamos assinaturas para o abaixo-assinado em meados do ano passado estava sempre conosco. Foi a única que, desde o início, dispôs-se a nos receber e manteve o diálogo sempre aberto desde então. Por diversas vezes, e sou prova disso, tentou articular reuniões com as instâncias do Poder para planejar ações imediatas para o aumento da força policial em nosso município.) revelou para todo Sergipe o caos que vivia a cidade de Poço Verde rechaçando a atuação de um grupo de extermínio que formava um poder paraestatal para resolver os problemas. Feito isso, sensacionalizaram na mídia o extermínio e, do nada, a secretaria de segurança pública - vejam só! - decidiu agir. Por que será? Por que só agora? Foi a exibição em veículos importantes do estado e do país do descaso escancarado do governo em uma cidade tão pequena e, até bem pouco tempo, tão pacata que provocou isso? Ou será que foi o medo da opinião pública?
Depois da denúncia da deputada, todo mundo queria saber de Poço Verde. Mas saber do que se a cidade estava "tranquila" - temporariamente, é claro, porque o problema é a pobreza e não os pobres - com as mortes? O porteiro do meu condomínio em Aracaju me perguntou: "Vai pra Poço Verde? Cuidado. A coisa tá (sic) feia lá." O boca-a-boca na capital dava conta de uma cidade em estado de sítio. Não era verdade. Não naquele momento. Não como antes. As pessoas silenciaram com as mortes porque não encontravam outra forma de reivindicar segurança. Daí para aceitar a justiça com sangue foi fácil. Fizemos uma belíssima caminhada em agosto do ano passado. Quem nos ouviu? As perguntas não param. Estão pari passu com o crescimento do sentimento tão abominável de insegurança que teima em retornar. Não vamos nos render a essas emoções, não devemos isso às vítimas e muito menos a nós mesmos. O momento é de saída do casulo, de uma reflexão macro sobre tudo. É momento de pedir polícia de fronteira, polícia federal mas também de pedir ações conjuntas nas áreas de educação, saneamento básico, moradia, serviço social, promoção da saúde, lazer, cultura nas áreas vulneráveis do município de onde saem os "malfeitores". "Não criminalizem os pobres, criminalizem a pobreza!", repetia um amigo meu. É isso que falta. Discernimento e vontade para entender o motivo: por que todos jovens? Por que de áreas periféricas? Por que, em sua maioria, negros?
Nesse momento, evidencia-se urgente que respondamos a seguinte pergunta: queremos a morte de pobres criminosos ou queremos a morte da criminosa pobreza? Não é para acabar com a força policial, mas é para torná-la alicerce da vida comunitária, como diria Capitão Araújo que participou de audiência pública em agosto de 2012 em nosso Fórum Municipal. Ainda com a polícia, sobretudo a militar, é reverberado a mentalidade opressora advinda da ditadura que governou este país por 21 anos. As celas estão superlotadas demais com classe social, cor e idade. Não queremos mais bandidos. Queremos mais professores de cidadãos, arquitetos da vida. Você quer uma cidade mais segura? Eis aqui o desafio.

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