| 1º Ato Acorda Aracaju. Praça Fausto Cardoso, 20 de junho. |
Pintados de verde e amarelo, cobrindo o corpo com a bandeira do Brasil e entoando o hino nacional, tomaram as ruas em coro reivindicando diferentes coisas - queda da PEC 37, contra a "cura gay", redução da tarifa, saúde e educação de qualidade, etc. - numa alegria que conquistava qualquer um. Quem eram eles? Professores, alunos, médicos, advogados, pedreiros, militantes, sem-teto, negros, LGBTs, enfim, de nós, um pouco. Era uma massa difusa, com interesses heterogêneos, mas que compartilhava de um sentimento: a insatisfação pelo estado das coisas. Desacreditados na política e no modo de representação democrática que, vivamente, consideravam estar falidos; repudiavam bandeiras de sindicatos, de movimentos sociais e de partidos de esquerda por acreditar que neles estavam o sistema que os oprimia, que os empurrava fortemente para fora de um lugar que considerava ser seu. No caso, o próprio país.
Com isso, uma onda tomou conta do Brasil, e como o mar nas suas desventuras imprevisíveis, agiu sem dono, mas sabia que fazia parte de algo maior. Não arquitetavam uma Revolução e nem um Golpe, como poderiam crer alguns extremistas. Estavam pelo impulso de "acordar". Talvez, contudo, ainda estejam abrindo os olhos.
O fato é que se não abraçaram até agora uma pauta de esquerda, tampouco defenderam ideias reacionárias ou conservadoras - apesar dos casos isolados de queima de bandeiras e violência criminosa contra manifestantes que pertencem a partidos. Movimentos sociais e estudantis foram hostilizados, pessoas da esquerda foram inquiridas a responder de que lado estavam, mesmo sabendo que elas jamais pegarem no sono enquanto, sucessivamente, as injustiças não paravam de acontecer. E que, só por elas e com elas, foi que esses atos conseguiram ocorrer de forma tão bonita, ordeira e inspiradora. Procuraram mudar o mundo por si mesmos, gritar e gritar sem que ninguém os acompanhasse. Parecia birra de criança pra não dividir o pedaço de torta com o amiguinho. Pela lógica que desejava um segmento desta manifestação, o que queriam? Dizer para o corrupto para não fazer mais isso ou cobrar um novo tipo de Estado? Não sei. Eles não sabem. Nós, talvez, jamais, com tanta verdade, saberemos.
Também colocaram fogo em ônibus, depredaram patrimônio público, saquearam supermercados e destruíram agências bancárias. Quem fez isso? Um grupo. O que foi dito pela mídia? Manifestantes. Não que esses "vândalos" tenham razão pelo que fizeram, mas o que foi mesmo que a polícia e o Estado fizeram e fazem todos os dias com boa parte da população? Alguém sabe o que é um hospital de qualidade? Uma escola com infraestrutura e que não falte professores? Um trabalho digno com jornada de trabalho que não seja extenuante e salário razoável? Uma casa?!
Existe um problema com o que dizem sobre o que é o concreto: a Polícia Militar agiu e age de forma truculenta na maior parte das cidades onde aconteceram e ainda acontecem os protestos. Mas não só lá: diariamente, e com a mesma força, age em favelas e em zonas periféricas das cidades dizimando, principalmente, jovens numa clara reconfiguração dos capitães-do-mato e escravos fugidos pertencentes a lógica da Casa Grande e Senzala da qual não nos afastamos. Ver o que esses fardados fazem hoje, e xingá-los por isso, só externa uma realidade que está bem presente no cotidiano daqueles que vivem à margem da sociedade e que teimamos em afastá-los para preservar o nosso mundo da feiura, da sujeira e da pobreza em clara contraposição ao belo, ao limpo e ao rico, a que nos habituamos a enxergar como nosso objetivo de vida. Que pena para nós! Estamos perdendo tanto em palavras. "Eu sou brasileiro com muito orgulho e com muito amor" não cola mais. Orgulho e amor de quê? Enquanto o Brasil acorda - e fico feliz por isso -, há muito que se aprender ainda, mas que isso seja feito na rua. Afinal, se conseguimos parar o Brasil, para transformá-lo falta um pouquinho só... de disposição para ouvir.
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