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| Paú em montagem como capa da sua Fanpage no Facebook. |
As mãos não
param. O sorriso quase parece cerrar a boca. Num sábado como muitos outros,
numa manhã como muitas outras, um corpo frágil atende a uma multidão que bebe e
joga sob o olhar fraterno do sagrado coração de Jesus na parede. À tarde, o
mesmo corpo frágil está sentado numa cadeira simples de madeira. Seu nome é
Adelmo de Jesus Santos, mas, para todos, Paú Barroca. O corpo então se vira e
começa a falar. Está desgastado pelo tempo. Tem 48 anos. É cantor, compositor,
músico e dono de um bar que fica localizado na avenida Epifânio Dória, centro
da cidade de Poço Verde, interior de Sergipe.
Quando se
fala em brega, o nome certo na cidade é ele. Reconhecido nos anos 80 como
imitador de Amado Batista, Paú orgulha-se de ter ganhado treze shows de
calouros durante a vida mesmo sem nunca ter acumulado fortuna. Filho de família
pobre, apenas um entre 25 irmãos, começou a trabalhar cedo para ajudar em casa,
aos nove anos. Os pais morreram quando já estava adulto e os irmãos foram
partindo durante a vida. “Mas nunca de acidente nem nada”, gosta de frisar. Começou
com 25 e hoje tem apenas cinco irmãos. Sendo um criado pela família. O nome Paú
Barroca veio da proximidade com o do pai Manuel da Barroquinha. Os pais vieram
da Bahia, da Mata de Paripiranga, mas Paú sempre foi de Poço Verde. Trabalhou
no que dava: pedreiro, padeiro. Aos 15 anos começou a tomar cachaça “porque
trabalhava demais”. Aos 20, depois de participar de serenatas pela cidade com
Avelino Caboclo e Seu Marinho e de ganhar concursos de música, Adelmo
finalmente se tornou Paú.
Gravou CDs,
DVDs, fez shows e clipes pelo interior e ficou conhecido na região por sua voz
melancólica e frágil e composição de coisas simples do cotidiano. Vendeu 500
cópias com o primeiro DVD gravado em 2008 no povoado Malhadas. Com os clipes,
vendeu 5 mil cópias com o primeiro, em torno de 3 mil com o segundo e por volta
de 3 mil com o terceiro. “Isso fora os barraqueiros”, frisa. Nunca, porém,
conseguiu viver da música. Teve que continuar se ocupando do que tinha a disposição
para manter de pé o sonho de trabalhar com o que gostava. Com 22 teve o seu
primeiro filho. Hoje são cinco. Dois casados e três em casa. A companheira é a
mesma de sempre. Conheceu ela por acaso quando veio para Poço Verde. Dos seus
shows, sempre participa. Paú compôs uma música em sua homenagem: Josefa. Porém,
o episódio mais marcante de sua vida, certamente, nada tem a ver com a sua
profissão. Foi a morte do seu filho, Lindemberg, de 19 anos, que após um corte
bobo no pé, não resistiu a uma infecção e faleceu em um intervalo de poucas
horas. Para ele gravou “Entes Queridos”, onde relata toda a dor que sofreu
desde o momento da hospitalização até o seu enterro.
Segundo Zé
Nilson, 47 anos, Paú já pensou em desistir. Amigo há 34 anos do rei do brega de
Poço Verde, ele confessa que as coisas estão mais difíceis agora. Cantar virou
trabalho árduo mesmo com todo o ânimo do artista. Precisa-se de equipamentos,
transporte, equipe e, principalmente, apoio. Nesse sentido, declara: “a mão
direita de Paú tá sendo eu”. É Zé quem leva de carro Paú para os shows, que
convida o amigo para tocar em seu bar, que conversa e tenta resolver os seus
problemas. Mas Paú faz o mesmo. “Eu ajudo ele e ele me ajuda”, lembra. Zé conta
que o momento mais difícil de Paú foi quando era pedreiro. Não tinha vínculo
empregatício e as relações de trabalho eram bastante precárias. Paú mal
conseguia viver com o que ganhava. Só depois, porém, em 1997, com a compra de
um bar no centro da cidade, as coisas começaram a melhorar. Paú conseguiu
conciliar o trabalho no bar com o de cantor. Mas, confessa, se pudesse viveria
exclusivamente da música.
O problema
é que viver da música é algo bastante complicado. Conforme Tonico Saraiva,
presidente do Sindicato dos Músicos de Sergipe (Sindimusi-SE), “os produtores
de eventos não consideram o músico como um funcionário”. O músico por não ter
uma relação estável com o trabalho, de estar fadado à informalidade pela revelia
da subproletarização dos contratos, quase sempre fica sujeito às trocas de
interesse político. Essa relação envolve governadores, prefeitos, vereadores,
grandes comerciantes e industriais e demais agentes do poder de todas as partes
do país. Em Sergipe, por exemplo, “existe meia dúzia de empresários que
escolhem os músicos locais”. Os sindicatos, contudo, de maneira geral, têm
trabalhado para alertar aos artistas sobre a importância da sindicalização com
o objetivo de barrar esse tipo de exploração e formalizar as relações
contratuais para que elas sejam plenamente atendidas. De acordo com Tonico, a
partir da próxima segunda-feira, 19, os 75 municípios de Sergipe serão
notificados pelo Sindimusi para obedecer o que está previsto em lei.
Paú não é
sindicalizado. Vive do esforço próprio e da ajuda de amigos. Para trabalhar,
porém, reconhece que precisa do governo. Diz que no tempo de Everaldo
(ex-prefeito), as coisas eram melhores. Hoje, porém, está difícil. O meio
político não o beneficia mais. O brega já não faz mais tanto sucesso. “Preciso
voltar a sair, senão tudo vai se acabar”. Da sua música, por isso, torna a
letra um desabafo, um prenúncio para o que espera e pelo modo como vê o mundo.
Como neste trecho de Deus e Nossa Senhora Aparecida onde parece apontar o
futuro: “eu estou indo embora direto pra o Sul do país deixando o meu Poço
Verde. São coisas que eu nunca quis. Deixando o meu Sergipe. São coisas que eu
nunca quis.”
Para Tonico
Saraiva, os problemas que envolvem essa escassez de eventos com músicos locais
estão concentrados no governo e no Conselho de Cultura do Estado. Formado por
oito representantes, sendo quatro da sociedade civil e quatro indicados pelo
governo, o conselho, denuncia, está totalmente aparelhado para beneficiar o
governo. Com isso, uma das grandes reivindicações do sindicato de músicos é
justamente que essa participação paritária se cumpra de fato. Assim como nos
demais espaços criados pelo governo, como nas conferências de cultura.
Procurada, porém, a Secretaria de Estado da Cultura (Secult) não se manifestou.
Os olhos
estão cansados. Por duas vezes Paú é interrompido. Estamos no bar, o portão
está meio aberto. O que mais vende são doses de alcatrão com mel, cachaça 21 e
Pitu. Paú não bebe. Tem um bar há 16 anos, mas não bebe há 25. Zé Nilson diz
que foi por causa de uma doença, Paú que foi por porque foi vítima de arma
branca. No bar o que mais toca é brega e sertanejo. É um lugar simples e que
remonta boa parte dos bares que estão espalhados pelo país com sua mesa de
sinuca, seu espelho na vertical, seu piso vermelho esquadrilhado, suas garrafas
de cachaça religiosamente impostas em prateleiras ao fundo. Tem o nome de
“Amigo dos Amigos”. Zé Nilson diz que é porque Paú não teve essa ideia, que foram
os amigos que cobraram a ele um lugar para fazer encontros, serestas. Paú diz
que a ideia foi dele. Mas o impasse é resolvido por mais um cliente que o
interrompe para pedir uma dose de cachaça. Do lado de fora do bar, um vizinho
toca Reginaldo Rossi. Paú diz que Reginaldo, Júlio Nascimento, Amado Batista,
Ronaldo e Adriano e tantos outros que cantam o brega tradicional o
influenciaram e ainda o influenciam. Mas que agora, devido às novas tendências
do mercado fonográfico, tem que tocar no show de tudo um pouco.
A noite
chega. Por volta das 11 horas, Paú é esperado no Conjunto Antônio Carlos
Valadares. Estava previsto a apresentação de seis grupos. Paú, sozinho,
dedilhando com um teclado simples, começa. Havia por volta de 400 pessoas. “O
lamento da vaca velha”, “lei Maria da Penha”, “Adalgisa me largou pra ir morar
com a sapatona”, “meu velho pai” e “a moto não é pocada” são lembradas. O show
prossegue. Alguns casais se formam e a noite avança. Então, tudo termina com o
último toque do teclado. Paú volta pra casa. Adelmo volta pra casa. O brega
descansa. A rotina só volta na segunda-feira, no bar. Mas Paú não se esquece do
brega. E começa tudo de novo.
Atualizações:
*Fanpage de Paú Barroca no Facebook: https://www.facebook.com/pages/PAU-Barroca/523030701067485?fref=ts
*Gravação do próximo DVD com 6 músicas e a participação da cantora Cristina

Parabéns Baruc! Belo texto que retrata um pouco da vida e obra desse incansável e sonhador artista da nossa Poço Verde, Paú Barroca.
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