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quinta-feira, 28 de março de 2013

O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro

Quando Glauber Rocha fez a obra-prima O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro em 1969 - época do Ato Institucional nº 5 (AI-5) no período mais sombrio da ditadura militar - ele encontrou no jogo de opostos de uma dialética construída através da dissonância entre o que é visto com o que é ouvido uma forma de luta eficiente, intrigante e, sobretudo, genuína contra a brutalidade e irracionalidade de um governo que não se legitimava frente a progressão do pensamento de movimentos artísticos, intelectuais e democráticos. Na aurora da Nova República, o sentimento de que o Brasil iria dar certo, ser um país para os brasileiros e de comunhão das raças fez ressurgir uma esperança que se evidenciou ingênua e, de certo modo, infantil. Hoje, o que vemos é mais do que um retrocesso ao século passado, é a reconfiguração de uma ideologia que deveria ter morrido com a história, de uma luta que deveria ter sido travada entre arcanjos e não entre mortais imperfeitos.
No horizonte se vislumbra o crepúsculo. A vida é feita de ciclos e em um desses ciclos vivemos o dia. Nos dias temos a certeza de que as horas não mudam, são as mesmas sempre e de que toda a sua subdivisão entre minutos e segundos são meros caprichos para marcar a nossa vida. Esse crepúsculo e esses ciclos são coordenadas de tempo e de espaço. Eles existem de uma perspectiva e essa perspectiva quem damos somos nós. A ciência é o homem e o homem é a ciência. Ela, assim, também é um discurso. Um extraterrestre poderia reescrever completamente todas as teorias que formulamos sem que para isso estivesse errado. Nesse sentido, e depois de dizer tudo isso, coloco-me no sentido de defender que a religião também é um discurso. Um discurso tão legítimo quanto qualquer outro discurso, mas que, em si, guarda incontáveis interpretações de uma premissa singular - um texto sagrado, uma lenda. Não por acaso temos várias denominações religiosas para um mesmo texto: a bíblia. O problema é que esse discurso possui apenas uma verdade, o dogma, e de tão massificada ela se torna a única arma de ataque e de defesa excluindo, assim, outros discursos legítimos como, por exemplo, a ciência e a filosofia. Isso, claro, para quem é fundamentalista.
No bojo desse movimento fundamentalista estão deputados federais e senadores que, legitimamente, defendem interesses de grupos religiosos e, por isso, tem todo o direito de ter voz e vez num Congresso que se diz Nacional. O problema surge quando, através de instrumentos raquíticos do sistema político brasileiro, a coalizão extermina com a democracia, reduzindo-a a um nível de conformação muito próximo a de governos totalitários que tanto lemos nos livros de história. A gente elege o cara para nos representar e quando chega lá, no jogo político, ele se torna uma marionete porque depende de um grupo e esse grupo existe pelo dinheiro e é o dinheiro solto que provoca a corrupção. Sim, vocês entenderam bem. O problema não é Marco Feliciano nem Jair Bolsonaro ou Silas Malafaia, mas o sistema político brasileiro que extermina a dialética e transforma o consenso despótico na norma supra-constitucional que vigora livremente sem ser questionada. Ou seja, o interesse que antes era público se transforma em comercial. O meu voto gera um Dragão, ainda que o meu representante seja São Jorge.
Nessa perspectiva, mais do que abaixo-assinados contra Marco Feliciano e Silas Malafaia, manifestações contrárias à corrupção, o que se evidencia urgente é a reforma política com a participação ativa e indissolúvel da sociedade. Os movimentos sociais estão errados em sua forma - apesar de puros em seus objetivos - porque personalizam a figura do mal em um homem. Não perceberam que esse jogo maniqueísta o eleva, que torna unificado e vivo a ala ultraconservadora. Entendo que é difícil mobilizar a sociedade, mas se não começarmos a agir coerentemente e de um modo seguro iremos cair num precipício pior do que o buraco em que nos encontramos. Os Diretos Humanos já foram usados outrora por governos totalitários para privar nações apátridas de direitos fundamentais, colocando-as abaixo até de criminosos. A lei só funciona com uma interpretação e é através desse dispositivo subjetivo do discurso que os absurdos acontecem. Falta clareza para dar forma, conceito e motivação para as ações legislativas. Devemos sim aprender a escolher melhor nossos representantes, mas, também, nos certificarmos de que o trabalho deles não será moeda de troca, barganha de um mercado negro formado por pessoas que a gente vota porque é "menos pior".
Acabar com a religião não é necessário, muito menos com a ciência ou a filosofia. As pessoas não precisam - e nem devem - fazer coro uníssono sobre determinado assunto. Compreender o outro é também compreender que os preconceitos existem. Precisam existir! Mas não é por causa deles que vamos nos munir de ódio e cercear as liberdades individuais e coletivas que demoramos tanto tempo para conquistar. Da mesma forma que o Brasil não pode voltar no tempo e destruir com os avanços da Revolução Francesa e seus indicativos de Direitos do Homem e laicidade do Estado, também não pode se curvar para os abusos das formas administrativas dos Poderes. Somos nós, o povo, que formamos o Estado. Devemos e precisamos ter voz frente as armas deles. Se não tivermos, então chegou a hora de nos munir... de discursos.



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