![]() |
| Em destaque e ao fundo: filmes sergipanos. Imagem: Marlon Delano. |
Fazer
cinema é uma matemática complicada e, principalmente, cara. Pensando nisso, em
Sergipe, o incentivo à formação e difusão de um mercado audiovisual tem o
importante apoio do Núcleo de Produção Digital – NPD – Orlando Vieira. Ou, pelo
menos, tinha. Parado desde a saída de Grazielle Ferreira com a mudança da
gestão municipal de Aracaju, produtores, alunos de audiovisual e amantes da
sétima arte vivem um momento de incerteza quanto ao futuro desse importante
espaço para a cultura audiovisual do estado.
O
NPD Orlando Vieira surgiu através do Programa Olhar Brasil promovido pelo
governo federal que beneficiou também outras cidades do país e atua desde o ano
de 2006 na qualificação de profissionais e formação de público através de
oficinas, cursos, palestras e exibições de filmes. Nesses sete anos de
existência, seja prestando assistência a produtores independentes seja
produzindo seus próprios filmes, o NPD Orlando Vieira foi peça fundamental para
o crescimento do mercado de cinema em Sergipe, como conta o produtor Marcus
Mota de 27 anos: “O boom de filmes registrados nos últimos anos tem relação
direta com as atividades de formação e co-produção do NPD. Sem ele,
realizadores independentes não tem acesso a uma qualificada ilha de edição e
equipamentos profissionais necessários para a produção dos filmes. Além disso,
o NPD cumpria um papel formativo importante ao receber palestras, cursos e
fóruns de discussão sobre a cena audiovisual promovendo o intercâmbio com
outras linguagens e profissionais do setor.”
Com
a mudança de gestão municipal, o NPD Orlando Vieira parou. Não se tinha um
pronunciamento oficial quanto a permanência do Núcleo e nem se haveria um
investimento no setor. Em meio às incertezas, realizadores, alunos de
audiovisual e amantes da sétima arte se reuniram com o objetivo de tencionar as
forças competentes do governo para reivindicar o funcionamento pleno do NPD
Orlando Vieira. A mobilização ganhou a forma de um movimento chamado Existe
Cinema em Sergipe e que vem frequentemente realizando reuniões entre seus
membros. Um de seus representantes, Marcus Mota, revela que foi com a saída da
coordenadora-geral Grazielle Ferreira para a mudança de gestão que se percebeu
necessário criar um movimento para eliminar o risco da completa paralisação do
NPD Orlando Vieira: “Após a demissão da ex-coordenadora Grazielle Ferreira,
ficamos à espera do novo nome. Os meses foram passando e nada foi anunciado.
Pior, o NPD sequer era citado como equipamento da FUNCAJU (Fundação Cultura
Cidade de Aracaju) em seu site oficial. Isso nos deixou temerosos e, por saber
que o novo Secretário de Cultura faz questão de dizer que não entende nada da
pasta, resolvemos agir.”
A
preocupação pela paralisação do NPD Orlando Vieira é grande. Marlon Delano, de
25 anos, estudante de audiovisual da Universidade Federal de Sergipe – UFS –,
ex-aluno do NPD Orlando Vieira e um dos realizadores mais ativos e premiados do
estado, descreve os problemas enfrentados por quem quer fazer um filme em Sergipe
ou se tornar um profissional do audiovisual sem a ajuda de um espaço como o NPD:
“As dificuldades são muitas, muitas mesmo. Primeiro, é o financiamento: não só
Sergipe, mas muitas cidades do Nordeste não financiam projetos audiovisuais,
principalmente para ficção. Quando é pra gravar algo 'da terra' até que é mais
fácil, mas nós acabamos ficando presos a esse laço de raiz. O que acaba
impedindo uma certa evolução nossa. O curso de Audiovisual começa com muitos
problemas. Falta equipamento, salas adequadas... Tenho ótimos professores, mas
que não conseguem nos passar seu conhecimento pela falta de espeço físico
adequado. Vejo muitas vezes eles sem saber o que fazer quando precisam de um computador
ou um estúdio. O curso em si é muito prático, mas acabamos ficando só na
teoria. Nessa parte foi que o NPD ajudou muito, pois ele tem um certo espaço
físico. Não adequado, mas melhor que a própria universidade. Se não fosse por
nós mesmos, acho que todos esses curtas que estão sendo premiados país afora
nem existiriam.”
Além
da problemática da produção, o público ainda é um estranho para esse mercado
que depende da exibição para se manter. Poucas salas, alto valor do ingresso e
falta de políticas públicas eficientes para a distribuição, exibição e formação
de público oneram sobremaneira os custos de produção forçando a quem trabalha
com cinema a viver de subsistência. Nesse sentido, a estudante de Ciências
Sociais da UFS, Ana Cláudia, de 20 anos, revela que não tem o hábito de ir ao
cinema: “Eu não acompanho. Quase nunca vou ao cinema e quando vou é geralmente
pela companhia e não pelo filme.” Esse distanciamento com o cinema também
encobre os seus problemas. “Na verdade, pelo fato de eu não frequentar tanto,
não vejo muitos problemas... mesmo acreditando que eles existam”, pontua. Com
isso, não só os blockbusters – filmes de grande bilheteria – como, e
principalmente, os sergipanos sequer são lembrados, como, com espanto, conta
Ana Cláudia sobre a existência de uma produção constante de realizadores do
estado: “Nem sabia que existiam.”
Nessa
perspectiva, o movimento Existe Cinema em Sergipe tem realizado reuniões com o
secretário de cultura, Nitinho Vitalle, a fim de pressionar o governo por um
posicionamento quanto ao funcionamento pleno do NPD Orlando Vieira e articular
mudanças para um desenvolvimento eficaz do mercado audiovisual em Sergipe. Em
uma dessas reuniões, ficou acertado a nomeação do novo coordenador-geral e a
transferência do NPD Orlando Vieira para um novo local enquanto se processavam
reformas no espaço físico para garantir uma significativa melhoria nas
atividades desenvolvidas. Porém, essa medida não é vista com bons olhos pelos manifestantes,
como argumenta Marcus Mota: “Na reunião, ficamos sabendo que o novo coordenador
seria indicado na semana passada (retrasada) e que o NPD mudaria de local, mas
não disseram pra onde. Isso nos deixou ainda mais agoniados, por conta da
possibilidade dos equipamentos serem destinados para outros setores ou que o
Núcleo siga para um espaço inadequado para suas funções e atividades.”
Segundo
a Assessoria de Comunicação da Funcaju, não há previsão de quando o NPD Orlando
Vieira retornará a atividade. Ainda conforme a assessoria, todas as medidas que
serão tomadas estão passando por um planejamento estratégico e a demora de um
posicionamento oficial é justificada por esse período de adaptação da nova
gestão às funções que lhes são destinadas. Nesse ínterim, novas reuniões estão
previstas e o debate por uma cultura audiovisual pujante em Sergipe apenas se
inicia.
*O curta a seguir foi produzido por alunos do NPD Orlando Vieira e participou de importantes mostras de cinema no Brasil e exterior. Intitulado Do Outro Lado do Rio, o filme conta a história de dois personagens em sua rotina diária indo de um interior próximo pela vida a uma cidade distante pelos prédios. Tudo isso marcado pelo contraste do ambiente com as relações de um pescador embrutecido e a sua filha, menina tímida e cheia de sonhos.
Links: Fanpage Existe Cinema em Sergipe: http://www.facebook.com/ExisteCinemaEmSergipe?fref=ts
Blog NPD Orlando Vieira: http://npdorlandovieira-aju.blogspot.com.br/

Nenhum comentário:
Postar um comentário