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segunda-feira, 25 de março de 2013

Sergipe tem cinema, mas os sergipanos não sabem

Em destaque e ao fundo: filmes sergipanos. Imagem: Marlon Delano.

Fazer cinema é uma matemática complicada e, principalmente, cara. Pensando nisso, em Sergipe, o incentivo à formação e difusão de um mercado audiovisual tem o importante apoio do Núcleo de Produção Digital – NPD – Orlando Vieira. Ou, pelo menos, tinha. Parado desde a saída de Grazielle Ferreira com a mudança da gestão municipal de Aracaju, produtores, alunos de audiovisual e amantes da sétima arte vivem um momento de incerteza quanto ao futuro desse importante espaço para a cultura audiovisual do estado.
O NPD Orlando Vieira surgiu através do Programa Olhar Brasil promovido pelo governo federal que beneficiou também outras cidades do país e atua desde o ano de 2006 na qualificação de profissionais e formação de público através de oficinas, cursos, palestras e exibições de filmes. Nesses sete anos de existência, seja prestando assistência a produtores independentes seja produzindo seus próprios filmes, o NPD Orlando Vieira foi peça fundamental para o crescimento do mercado de cinema em Sergipe, como conta o produtor Marcus Mota de 27 anos: “O boom de filmes registrados nos últimos anos tem relação direta com as atividades de formação e co-produção do NPD. Sem ele, realizadores independentes não tem acesso a uma qualificada ilha de edição e equipamentos profissionais necessários para a produção dos filmes. Além disso, o NPD cumpria um papel formativo importante ao receber palestras, cursos e fóruns de discussão sobre a cena audiovisual promovendo o intercâmbio com outras linguagens e profissionais do setor.”
Com a mudança de gestão municipal, o NPD Orlando Vieira parou. Não se tinha um pronunciamento oficial quanto a permanência do Núcleo e nem se haveria um investimento no setor. Em meio às incertezas, realizadores, alunos de audiovisual e amantes da sétima arte se reuniram com o objetivo de tencionar as forças competentes do governo para reivindicar o funcionamento pleno do NPD Orlando Vieira. A mobilização ganhou a forma de um movimento chamado Existe Cinema em Sergipe e que vem frequentemente realizando reuniões entre seus membros. Um de seus representantes, Marcus Mota, revela que foi com a saída da coordenadora-geral Grazielle Ferreira para a mudança de gestão que se percebeu necessário criar um movimento para eliminar o risco da completa paralisação do NPD Orlando Vieira: “Após a demissão da ex-coordenadora Grazielle Ferreira, ficamos à espera do novo nome. Os meses foram passando e nada foi anunciado. Pior, o NPD sequer era citado como equipamento da FUNCAJU (Fundação Cultura Cidade de Aracaju) em seu site oficial. Isso nos deixou temerosos e, por saber que o novo Secretário de Cultura faz questão de dizer que não entende nada da pasta, resolvemos agir.”
A preocupação pela paralisação do NPD Orlando Vieira é grande. Marlon Delano, de 25 anos, estudante de audiovisual da Universidade Federal de Sergipe – UFS –, ex-aluno do NPD Orlando Vieira e um dos realizadores mais ativos e premiados do estado, descreve os problemas enfrentados por quem quer fazer um filme em Sergipe ou se tornar um profissional do audiovisual sem a ajuda de um espaço como o NPD: “As dificuldades são muitas, muitas mesmo. Primeiro, é o financiamento: não só Sergipe, mas muitas cidades do Nordeste não financiam projetos audiovisuais, principalmente para ficção. Quando é pra gravar algo 'da terra' até que é mais fácil, mas nós acabamos ficando presos a esse laço de raiz. O que acaba impedindo uma certa evolução nossa. O curso de Audiovisual começa com muitos problemas. Falta equipamento, salas adequadas... Tenho ótimos professores, mas que não conseguem nos passar seu conhecimento pela falta de espeço físico adequado. Vejo muitas vezes eles sem saber o que fazer quando precisam de um computador ou um estúdio. O curso em si é muito prático, mas acabamos ficando só na teoria. Nessa parte foi que o NPD ajudou muito, pois ele tem um certo espaço físico. Não adequado, mas melhor que a própria universidade. Se não fosse por nós mesmos, acho que todos esses curtas que estão sendo premiados país afora nem existiriam.”
Além da problemática da produção, o público ainda é um estranho para esse mercado que depende da exibição para se manter. Poucas salas, alto valor do ingresso e falta de políticas públicas eficientes para a distribuição, exibição e formação de público oneram sobremaneira os custos de produção forçando a quem trabalha com cinema a viver de subsistência. Nesse sentido, a estudante de Ciências Sociais da UFS, Ana Cláudia, de 20 anos, revela que não tem o hábito de ir ao cinema: “Eu não acompanho. Quase nunca vou ao cinema e quando vou é geralmente pela companhia e não pelo filme.” Esse distanciamento com o cinema também encobre os seus problemas. “Na verdade, pelo fato de eu não frequentar tanto, não vejo muitos problemas... mesmo acreditando que eles existam”, pontua. Com isso, não só os blockbusters – filmes de grande bilheteria – como, e principalmente, os sergipanos sequer são lembrados, como, com espanto, conta Ana Cláudia sobre a existência de uma produção constante de realizadores do estado: “Nem sabia que existiam.”
Nessa perspectiva, o movimento Existe Cinema em Sergipe tem realizado reuniões com o secretário de cultura, Nitinho Vitalle, a fim de pressionar o governo por um posicionamento quanto ao funcionamento pleno do NPD Orlando Vieira e articular mudanças para um desenvolvimento eficaz do mercado audiovisual em Sergipe. Em uma dessas reuniões, ficou acertado a nomeação do novo coordenador-geral e a transferência do NPD Orlando Vieira para um novo local enquanto se processavam reformas no espaço físico para garantir uma significativa melhoria nas atividades desenvolvidas. Porém, essa medida não é vista com bons olhos pelos manifestantes, como argumenta Marcus Mota: “Na reunião, ficamos sabendo que o novo coordenador seria indicado na semana passada (retrasada) e que o NPD mudaria de local, mas não disseram pra onde. Isso nos deixou ainda mais agoniados, por conta da possibilidade dos equipamentos serem destinados para outros setores ou que o Núcleo siga para um espaço inadequado para suas funções e atividades.”
Segundo a Assessoria de Comunicação da Funcaju, não há previsão de quando o NPD Orlando Vieira retornará a atividade. Ainda conforme a assessoria, todas as medidas que serão tomadas estão passando por um planejamento estratégico e a demora de um posicionamento oficial é justificada por esse período de adaptação da nova gestão às funções que lhes são destinadas. Nesse ínterim, novas reuniões estão previstas e o debate por uma cultura audiovisual pujante em Sergipe apenas se inicia.

*O curta a seguir foi produzido por alunos do NPD Orlando Vieira e participou de importantes mostras de cinema no Brasil e exterior. Intitulado Do Outro Lado do Rio, o filme conta a história de dois personagens em sua rotina diária indo de um interior próximo pela vida a uma cidade distante pelos prédios. Tudo isso marcado pelo contraste do ambiente com as relações de um pescador embrutecido e a sua filha, menina tímida e cheia de sonhos.

 Links: 
Fanpage Existe Cinema em Sergipe: http://www.facebook.com/ExisteCinemaEmSergipe?fref=ts
Blog NPD Orlando Vieira: http://npdorlandovieira-aju.blogspot.com.br/

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