Por duas vezes, paramos. Elisângela Oliveira e Lindicelma
dos Santos foram os personagens. Cada um a seu modo. Cada um a seu contexto.
Por duas vezes, tomamos e tomaremos a semana para conversar na rua, para
discutir sobre o acontecido. O enredo era e é a morte trágica provocada por um
alguém . "Ele é um monstro", "merecia morrer", são os
últimos revivals. Por duas vezes, saímos, trancamos a porta e só retornamos a
questão para a revolta. Por duas vezes nos silenciamos. A morte é exterior e a
violência - cremos - é um fato isolado provocado por um "louco". Por
duas vezes, por isso, erramos.
Os gritos estão mais fortes. Há pouco tempo, Daniele
Bispo, em Aracaju. Há algum tempo, Elisângela Oliveira, aqui, em Poço Verde.
Agora, Lindicelma dos Santos. O que as três têm em comum? Um gênero que as
identifica, mas que não é seu por natureza. Longe de estar deslocado, é sobre
eles que falamos, sobre os seus corpos, suas significações. Não é isso? Não.
Não é. Falamos sobre a grandiosa história dramática; a tragédia anunciada; as
ações casuísticas que poderiam ter solucionado. Nada falamos, porém, sobre a
violência dentro de seu percurso histórico, das milhares que sofrem do mesmo
mal simbólica, física e psicologicamente. Nada falamos sobre as classes que
pertencem, sobre as desigualdades que sofrem e sobre o papel social que
precisam cumprir. Enfim, nada se fala A PARTIR delas, mas, SOBRE elas.
A última que sofreu, a última que gritou, trouxe à luz
da sua violência a localização do que está em xeque sobre a mulher: o seu
corpo. Lindicelma dos Santos foi, segundo seu irmão, Cristiano Costa, estuprada
e, em seguida, queimada viva. O fogo foi direcionado para a sua vagina e sua
cabeça. Uma mulher sem rosto e sem vagina, pois, foi encontrada morta. Isso nos
remete ao texto da antropóloga Yvonne Maggie que ao comparar a tela de Gustave
Coubert ("A Origem do Mundo") - que retrata uma mulher, sem se ver o
resto, deitada com as pernas abertas e a vagina à mostra (clique aqui para ver e, ao abrir, passe o cursor sobre a imagem para revelar a pintura) - com a
Marcha das Vadias e o vídeo "Oh, meu Deus!" do grupo Porta dos Fundos
faz uma analogia ao cortinamento da vida sobre véus que se formam por um
processo histórico conflituoso. Diz ela: "O escandaloso quadro que só foi
mostrado ao público mais de cem anos depois de realizado demonstra que estamos
longe de libertar a humanidade dos seus limites religiosos e ideológicos. Só
nos aproximamos da origem a partir de um véu, como a tela superposta por
Masson. A origem está lá, presente, mas não pode ser mostrada a não ser pelo
mito, como a tela que a protege. A vulva exposta com tanta crueza se aproxima
da visão de Cristo dentro dela, ou de Cristo na genitália feminina".
Lindicelma e o texto de Yvonne Maggie se encontram em
limites construídos pelo corpo. É sobre isto que se trata a violência que tanto
Elisângela quanto Daniele ou Lindicelma sofreram: o campo de luta sobre algo
que deveria ser seu. Em meio a tantas perguntas, olhamos, então, envolta,
destituídos do sentido simbólico e perguntamos: onde isso materialmente pode
ser mudado? Em resposta, o presente aponta para a indiferença. As políticas
públicas e sociais dos últimos anos não conseguem abarcar nada para além do
desenvolvimentismo capitalista. As políticas para as mulheres ficaram restritas
para a sua saúde dentro de limites programáticos. A própria lei Maria da Penha
tem seu limite classista claro. Em Sergipe, e em Poço Verde especificamente, o
déficit de delegacias especializadas para tratar de questões correlatas e de
plantonistas fazem toda a diferença. A falta de incentivo para uma integração
entre sede e interior dificultam as relações e o acúmulo de debates e de
formação em escolas contra a violência. Falta, por isso, muito a ser feito.
Muito a ser discutido. Muito a ser avançado. O que não podemos é descansar no
erro, nos conformar no silêncio. Porque elas estão aqui, gritando: NÃO QUEREMOS
COMPANHIA!

Que triste o drama dessas vidas abreviadas, e mais triste ainda o fato de terem sido esquecidas. O caso de Lindicelma em Poço Verde só foi notícia na época do ocorrido, mas depois... não se sabe se fora encontrado o(s) assassino(s) e se foram punidos. Essa é a "morta verdadeira" pois não se fala mais o nome dela, totalmente esquecida! (pela imprensa!). Desejo de Justiça para as três. :-/
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