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segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Entre Elisângela e Lindicelma: a inércia

Por duas vezes, paramos. Elisângela Oliveira e Lindicelma dos Santos foram os personagens. Cada um a seu modo. Cada um a seu contexto. Por duas vezes, tomamos e tomaremos a semana para conversar na rua, para discutir sobre o acontecido. O enredo era e é a morte trágica provocada por um alguém . "Ele é um monstro", "merecia morrer", são os últimos revivals. Por duas vezes, saímos, trancamos a porta e só retornamos a questão para a revolta. Por duas vezes nos silenciamos. A morte é exterior e a violência - cremos - é um fato isolado provocado por um "louco". Por duas vezes, por isso, erramos.
Os gritos estão mais fortes. Há pouco tempo, Daniele Bispo, em Aracaju. Há algum tempo, Elisângela Oliveira, aqui, em Poço Verde. Agora, Lindicelma dos Santos. O que as três têm em comum? Um gênero que as identifica, mas que não é seu por natureza. Longe de estar deslocado, é sobre eles que falamos, sobre os seus corpos, suas significações. Não é isso? Não. Não é. Falamos sobre a grandiosa história dramática; a tragédia anunciada; as ações casuísticas que poderiam ter solucionado. Nada falamos, porém, sobre a violência dentro de seu percurso histórico, das milhares que sofrem do mesmo mal simbólica, física e psicologicamente. Nada falamos sobre as classes que pertencem, sobre as desigualdades que sofrem e sobre o papel social que precisam cumprir. Enfim, nada se fala A PARTIR delas, mas, SOBRE elas.
A última que sofreu, a última que gritou, trouxe à luz da sua violência a localização do que está em xeque sobre a mulher: o seu corpo. Lindicelma dos Santos foi, segundo seu irmão, Cristiano Costa, estuprada e, em seguida, queimada viva. O fogo foi direcionado para a sua vagina e sua cabeça. Uma mulher sem rosto e sem vagina, pois, foi encontrada morta. Isso nos remete ao texto da antropóloga Yvonne Maggie que ao comparar a tela de Gustave Coubert ("A Origem do Mundo") - que retrata uma mulher, sem se ver o resto, deitada com as pernas abertas e a vagina à mostra (clique aqui para ver e, ao abrir, passe o cursor sobre a imagem para revelar a pintura) - com a Marcha das Vadias e o vídeo "Oh, meu Deus!" do grupo Porta dos Fundos faz uma analogia ao cortinamento da vida sobre véus que se formam por um processo histórico conflituoso. Diz ela: "O escandaloso quadro que só foi mostrado ao público mais de cem anos depois de realizado demonstra que estamos longe de libertar a humanidade dos seus limites religiosos e ideológicos. Só nos aproximamos da origem a partir de um véu, como a tela superposta por Masson. A origem está lá, presente, mas não pode ser mostrada a não ser pelo mito, como a tela que a protege. A vulva exposta com tanta crueza se aproxima da visão de Cristo dentro dela, ou de Cristo na genitália feminina".

Lindicelma e o texto de Yvonne Maggie se encontram em limites construídos pelo corpo. É sobre isto que se trata a violência que tanto Elisângela quanto Daniele ou Lindicelma sofreram: o campo de luta sobre algo que deveria ser seu. Em meio a tantas perguntas, olhamos, então, envolta, destituídos do sentido simbólico e perguntamos: onde isso materialmente pode ser mudado? Em resposta, o presente aponta para a indiferença. As políticas públicas e sociais dos últimos anos não conseguem abarcar nada para além do desenvolvimentismo capitalista. As políticas para as mulheres ficaram restritas para a sua saúde dentro de limites programáticos. A própria lei Maria da Penha tem seu limite classista claro. Em Sergipe, e em Poço Verde especificamente, o déficit de delegacias especializadas para tratar de questões correlatas e de plantonistas fazem toda a diferença. A falta de incentivo para uma integração entre sede e interior dificultam as relações e o acúmulo de debates e de formação em escolas contra a violência. Falta, por isso, muito a ser feito. Muito a ser discutido. Muito a ser avançado. O que não podemos é descansar no erro, nos conformar no silêncio. Porque elas estão aqui, gritando: NÃO QUEREMOS COMPANHIA!

Um comentário:

  1. Que triste o drama dessas vidas abreviadas, e mais triste ainda o fato de terem sido esquecidas. O caso de Lindicelma em Poço Verde só foi notícia na época do ocorrido, mas depois... não se sabe se fora encontrado o(s) assassino(s) e se foram punidos. Essa é a "morta verdadeira" pois não se fala mais o nome dela, totalmente esquecida! (pela imprensa!). Desejo de Justiça para as três. :-/

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