Um corpo
baila na noite. À contra-luz, desenvolve uma dança que manifesta o instinto
animal mais profundo. O desejo aflora. A dança que havia começado a passos
suaves ganha ritmo intenso. Todas as extremidades comunicam um sentido,
reivindicam a posse de si por osmose. Há um conflito e sobre ele está no
controle diversos agentes que se digladiam interna e externamente para
permanecer na gerência. Ao lado, há outro corpo. Esse não dança, mas observa.
Decide, então, entrar no jogo. Toca o corpo que dança e é tocado. Passividade e
atividade se confundem. O corpo que observava decide mudar a música. O corpo
que dança rejeita. A música muda. O corpo que observava tinha o poder de mudar.
Esse poder não foi concedido, mas construído. O corpo que dança entra no ritmo
da nova música mesmo sem consentir. Tensões são formadas sobre o poder de
mudar. O conflito interno e externo sobre o corpo que dança ganha mais uma
variável: o poder de trocar de música. Ontem, 19, no entanto, a música não
parou. Mas um corpo que dança foi colocado para fora do tablado. Seu nome é
Daniele Bispo, funcionária terceirizada do Restaurante Universitário (Resun) da
Universidade Federal de Sergipe (UFS).
O
corpo saiu sem ser convidado. De maneira súbita, e por denúncias que já se
acumulavam, foi empurrado para fora do seu espaço de atuação. Seu personagem
cadente foi desfeito. Quem o retirou? Outro corpo. Seu nome é Cleiton de Souza
Ramos. Ele é o corpo que observava. Os dois, Cleiton e Daniele, dançavam
juntos. Ao passo em que a vida avançava, a melodia configurava o prenúncio do
encerramento da dançarina. Então, o corpo que observava, no último ato, convida
o corpo que dança para uma última cena. A narrativa escolhida é clássica: Romeu
e Julieta. O amor, então, se transforma em contenda. A disputa se concentra no
corpo que dança. É ele o objeto, para o corpo que observava, que permite que o
amor aconteça. Por isso se luta, por isso se morre. Romeu, então, mata para
viver.
A
carne, pois, se abre. Dá pra ver tudo. Dá pra sentir tudo. Julieta, Daniele, é
o corpo aberto. Sobre ele operou-se o amor até o último instante. Quem estava
no controle? Quem foi o culpado? Romeu não sabe. Só sente a dor. A violência
existe, mas não é violência. É condenação. Romeu, por isso, tenta concluir a
profecia trágica que marca a obra de Shakespeare, porém, não consegue. Vai
preso. Apanha bastante, é xingado. Quem estava no controle? Quem foi o culpado?
Eu não sei. O corpo que dança já não existe em presença, mas em símbolo. Sobre
a cruz se põe a rosa. Julieta acena. Daniele dorme para viver.
Com isso, o
corpo que dança e o corpo que observava já não são unidade, mas diferença.
Sempre foram. A um configura-se o adjetivo diminuído de mulher e a outro o
aumentativo, de homem. São iguais na língua, ficções na natureza e verdades na
construção. Tudo o que se forma a partir deles, dos corpos, é forma inconteste
da mentira que paira sobre o meio: o sentido simbólico de gênero masculino e feminino
torna-se aspecto fundante do ser, dos corpos, dos sujeitos. Não se reconhece
mais o corpo por sinal imanete de existência, mas por sua flacidez de
apropriar-se e ser apropriado pelo mundo. O balé assume outro nome: sexo. O ritmo
outro gosto: identidade. A música outro caráter: vida.
As
coisas, por fim, se diluem na noite em movimentos bachianos. O público se
divide. A humanidade não é mais compreensível para os humanos. "O problema
é a segurança", "não tem almoço hoje?", "o cara é um
monstro", são reivindicações recorrentes. Uma pergunta retórica argumenta:
em que lugar colocaram Daniele e Cleiton? Num mundo de complexos não há espaço
para vítimas. O buraco aumenta. Dá pra ver o tamanho da dor. Nas entranhas de
Daniele, uma surpresa: a música não para de tocar. O corpo que dança já não
dança. Percebe, contudo, que nunca foi propriedade de ninguém e que a sua
performance independia da música. O controle sobre trocar de música poderia ser
compartilhado. Percebe também que não foi questão de hierarquia isso não ter
acontecido, mas de consentimento cultural subordinado. O corpo que dançava, por
isso, percebe o mundo. Um recorte, é bem verdade. Percebe a cultura, a lógica
de poder que a diferia do corpo que observava e da estrutura socioeconômica que
construiu o seu lugar de maneira mais ou menos elaborada. Tanto Romeu quanto
Julieta choram. O público continua a rir. Daniele, o corpo que dançava,
porventura da história pergunta: Quem estava no controle? Quem é o culpado? Os
corpos, de Daniele e Cleiton, de Julieta e Romeu, timidamente, respondem sem
temer: NÓS.
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