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terça-feira, 20 de agosto de 2013

A lágrima que nunca caiu

Um corpo baila na noite. À contra-luz, desenvolve uma dança que manifesta o instinto animal mais profundo. O desejo aflora. A dança que havia começado a passos suaves ganha ritmo intenso. Todas as extremidades comunicam um sentido, reivindicam a posse de si por osmose. Há um conflito e sobre ele está no controle diversos agentes que se digladiam interna e externamente para permanecer na gerência. Ao lado, há outro corpo. Esse não dança, mas observa. Decide, então, entrar no jogo. Toca o corpo que dança e é tocado. Passividade e atividade se confundem. O corpo que observava decide mudar a música. O corpo que dança rejeita. A música muda. O corpo que observava tinha o poder de mudar. Esse poder não foi concedido, mas construído. O corpo que dança entra no ritmo da nova música mesmo sem consentir. Tensões são formadas sobre o poder de mudar. O conflito interno e externo sobre o corpo que dança ganha mais uma variável: o poder de trocar de música. Ontem, 19, no entanto, a música não parou. Mas um corpo que dança foi colocado para fora do tablado. Seu nome é Daniele Bispo, funcionária terceirizada do Restaurante Universitário (Resun) da Universidade Federal de Sergipe (UFS).
            O corpo saiu sem ser convidado. De maneira súbita, e por denúncias que já se acumulavam, foi empurrado para fora do seu espaço de atuação. Seu personagem cadente foi desfeito. Quem o retirou? Outro corpo. Seu nome é Cleiton de Souza Ramos. Ele é o corpo que observava. Os dois, Cleiton e Daniele, dançavam juntos. Ao passo em que a vida avançava, a melodia configurava o prenúncio do encerramento da dançarina. Então, o corpo que observava, no último ato, convida o corpo que dança para uma última cena. A narrativa escolhida é clássica: Romeu e Julieta. O amor, então, se transforma em contenda. A disputa se concentra no corpo que dança. É ele o objeto, para o corpo que observava, que permite que o amor aconteça. Por isso se luta, por isso se morre. Romeu, então, mata para viver.
            A carne, pois, se abre. Dá pra ver tudo. Dá pra sentir tudo. Julieta, Daniele, é o corpo aberto. Sobre ele operou-se o amor até o último instante. Quem estava no controle? Quem foi o culpado? Romeu não sabe. Só sente a dor. A violência existe, mas não é violência. É condenação. Romeu, por isso, tenta concluir a profecia trágica que marca a obra de Shakespeare, porém, não consegue. Vai preso. Apanha bastante, é xingado. Quem estava no controle? Quem foi o culpado? Eu não sei. O corpo que dança já não existe em presença, mas em símbolo. Sobre a cruz se põe a rosa. Julieta acena. Daniele dorme para viver.
Com isso, o corpo que dança e o corpo que observava já não são unidade, mas diferença. Sempre foram. A um configura-se o adjetivo diminuído de mulher e a outro o aumentativo, de homem. São iguais na língua, ficções na natureza e verdades na construção. Tudo o que se forma a partir deles, dos corpos, é forma inconteste da mentira que paira sobre o meio: o sentido simbólico de gênero masculino e feminino torna-se aspecto fundante do ser, dos corpos, dos sujeitos. Não se reconhece mais o corpo por sinal imanete de existência, mas por sua flacidez de apropriar-se e ser apropriado pelo mundo. O balé assume outro nome: sexo. O ritmo outro gosto: identidade. A música outro caráter: vida.
            As coisas, por fim, se diluem na noite em movimentos bachianos. O público se divide. A humanidade não é mais compreensível para os humanos. "O problema é a segurança", "não tem almoço hoje?", "o cara é um monstro", são reivindicações recorrentes. Uma pergunta retórica argumenta: em que lugar colocaram Daniele e Cleiton? Num mundo de complexos não há espaço para vítimas. O buraco aumenta. Dá pra ver o tamanho da dor. Nas entranhas de Daniele, uma surpresa: a música não para de tocar. O corpo que dança já não dança. Percebe, contudo, que nunca foi propriedade de ninguém e que a sua performance independia da música. O controle sobre trocar de música poderia ser compartilhado. Percebe também que não foi questão de hierarquia isso não ter acontecido, mas de consentimento cultural subordinado. O corpo que dançava, por isso, percebe o mundo. Um recorte, é bem verdade. Percebe a cultura, a lógica de poder que a diferia do corpo que observava e da estrutura socioeconômica que construiu o seu lugar de maneira mais ou menos elaborada. Tanto Romeu quanto Julieta choram. O público continua a rir. Daniele, o corpo que dançava, porventura da história pergunta: Quem estava no controle? Quem é o culpado? Os corpos, de Daniele e Cleiton, de Julieta e Romeu, timidamente, respondem sem temer: NÓS. 

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