"(...) Aqui e ali a luta se transforma em motim. Os operários triunfam às vezes; mas é um triunfo efêmero. O verdadeiro resultado de suas lutas não é o êxito imediato, mas a união cada vez mais ampla dos trabalhadores. Essa união é facilitada pelo crescimento dos meios de comunicação criados pela grande indústria e que permitem o contato entre operários de localidades diferentes." (MARX; ENGELS, 2010: 152. In: Manifesto Comunista.)
Quando, ainda em 1848, esse libelo foi escrito no meio tumultuado pela iminência de uma revolução na Europa, os pés desajustados deste texto sequer pensavam que, num período de mais de 150 anos, pudesse servir de refúgio para a análise que será feita agora. Não é, pois, de maneira alguma, eficaz ou prudente, dizer que entre aquele momento que a Europa viveu no final da primeira metade do século XIX seja próximo do que o Brasil viveu agora, em junho deste ano que finda. Não. Não é. O que há de novo que mecanicamente os aproxima, e que possivelmente já foi dito ou sentido por várias pessoas, é a sua valência enquanto poder constitutivo de uma sociedade que se pauta, ainda, tirando a natureza supérflua e simbólica que constrói o tecido social, na luta de classes. Uma luta, como bem frisa Marx e Engels, eminentemente política.
Os levantes de junho fizeram soçobrar as paredes de plástico do Estado e questionaram a sua natureza mesmo tendo em seu Gigante, o protagonista mainstream desta tentativa de "insurreição", um véu alienante que o impedia de enxergar para além das câmeras da Globo. De maneira geral, esse onda catártica que mesmo não começando em São Paulo, tem como aspecto fundante os resquícios de uma violência policial que desnovela como fio condutor da poderosa engrenagem que enfrenta o dilema central da maquinaria capitalista: "aqui há democracia, mas ela só serve para alguns". Bandeiras de partidos e sindicatos queimadas, políticos indesejados. Será que não aprendemos nada com as vozes das ruas?
A fugacidade das reivindicações e a clarividência dos meios de comunicação de massa não inquiriram com propriedade os manifestantes que acordaram a meia-noite para assistir aos fogos-de-artifício provocados historicamente por quem só sofre neste mundo. As pautas foram tantas que, rapidamente, a diluição juntamente com algumas poucas cobranças, espertamente planejadas, foram defendidas pelos atores/plano-médio do jornalismo brasileiro.
O fundo sempre em desgraça, o microfone projetado para o ambiente e o olhar que tentava reproduzir uma retina, reverberaram para milhões de lares brasileiros o choque: "o carinha de roupa preta é vândalo, já o que está com a bandeira nacional e com o Galaxy S4 postando no facebook 'Acorda Brasil!' é manifestante".
O espaço invisível foi ocupado. As ruas viraram campos de batalha para a disputa ideológica. Num dos raros momentos depois da Nova República, o que estava em pauta era os rumos do país. Para as categorias do pensamento, houve um colapso. Público, multidão ou massa? Como definir o que foi aquilo? Na TV, símbolos martirizados ainda em vida da, dita, esquerda tentavam dar coro, mas sempre estipulando medidas a tudo que acontecia. A medida era os limites do governo. A história, assim, varreu das lembranças de luta o que já se estava consagrado: a conciliação tem rosto e corpo burguês.
A justiça que precede o direito foi gloriosamente posta à tona. O que isso revela? Que os chamarizes descentralizados e esfumaçados que espraiavam os jovens como se nada fossem não passavam de brincadeira de criança. Os corpos que ali permaneceram, unidos pelo sentimento de revolta, estavam para a força dialética do capitalismo assim como a água está para o mar. Eram trabalhadores, oprimidos de toda sorte, sujeitos para quem o direito não se fazia realidade porque a realidade que dá diretos não é a realidade burguesa!
Dentro desse caldeirão, algumas indicações de um caminho em dissintonia com a própria realidade começam a apontar para uma saída que se fazia presente nesse insight de Engels e Marx: o acúmulo pelo tempero das lutas gera um acúmulo da consciência de classe para o seu potencial de superação do sistema. Não é que seja um presente possível, mas real! E essa contenda colocada no seio de um movimento atípico, dentro de um percurso histórico, nos conduzirá na direção de possíveis, e desejadas, lutas futuras. Confrontos que estarão postos para a história e que, se não forem colocados em 2014, certamente o serão nos anos seguintes.
Convém, mesmo com esse otimismo contido, lembrar que os avanços conquistados pela sociedade burguesa tem o limite claro de sua contestação. Nesse exato momento, por exemplo, em que as palavras pululam neste texto, uma guerra é travada e produzida pelo Estado contra os mais pobres, negros, jovens e de zonas periféricas; contra os índios que denunciam e resistem contra o extermínio provocado pelos latifundiários; contra os homossexuais e mulheres que abreviam a sua vida pela força materializada do machismo e da sociedade patriarcal. São essas vozes que, para nós, convertem-se em tarefas a serem vencidas, superadas, pelo próprio processo natural a que fomos destinados pela história: a Revolução.
O nosso devir revolucionário, em ritmo e graça, jamais esteve tão pronto para se afirmar na potência que subverterá as estruturas de exclusão e da desigualdade. Assim, os gritos que estiveram nas ruas e que ainda ecoam em nossas vidas continuarão a nos pressionar por mudanças profundas em tudo que está aí posto. Sem disfarce, sem reconhecer as deficiências e problemas pelo percurso, sem fazer uma leitura acrítica da realidade, é que podemos garantir: 2013 não acabará em 31 de dezembro.




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